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A cor dos corações


Portas e janelas de casa antiga

Luena tinha pele cor do chocolate, olhos negros e um maravilhoso cabelo caheado. André era branco leite, de olhos verdes e cabelo rebelde cor de bronze. Namoravam à janela. Ela na casa da esquerda e ele na casa da direita. Os pais tentaram impedir o namoro dos dois, onde já se viu jovens tão diferentes assim juntinhos o tempo todo, que disparate, o que vão dizer as pessoas! Luena e André não desistiram. Devagar, devagarinho e “sem querer” lá levaram os pais a travar conhecimento com os vizinhos do lado. Ao fim de poucas semanas já eram os melhores vizinhos. A Dona Maria e a Dona Alika trocavam receitas e histórias de família. O Sr António e o Sr Bomani falavam das lutas pela liberdade dos seus países. Os outros moradores do bairro olhavam de lado para toda aquela felicidade, tão irritante, ora esta! Não chegava já os miúdos por aí de mãos dadas o tempo todo agora são os pais sempre felizes e contentes. Ele é no talho, no padeiro, no café da esquina, sempre em amena cavaqueira. Aos poucos esta gente triste começou a ser contagiada por tanta alegria… Começaram a aparecer sorrisos nas caras mais improváveis. O Manel da fruta deixou de se preocupar por lhe faltar um dente da frente e passou a receber a clientela com um bom dia meio que assobiado. A Dona Arminda, viúva há muitos anos, deixou de se vestir de preto e apareceu no café uma manhã com uma túnica mil cores que a Dona Alika lhe oferecera pelo seu 70º aniversário, os olhos a brilhar cheios de rugas de tanto sorrir. O Zé sapateiro convidou a Sra Kateryna para lanchar. A Dona Leonor ofereceu ajuda à Dona Radmila para aprimorar o seu português. Os miúdos destas gentes decidiram que, se os pais se dão tão bem uns com os outros, não valia a pena ficar em casa a ver televisão depois das aulas e preferiram levar as brincadeiras da escola para a rua do bairro. Quando foi a festa anual da terra não houve vivalma que ficasse em casa. Estavam todos na praça, desde os bebés de colo aos velhotes de bengala e andarilho. Juntos, assinaram uma petição para pedir a mudança do nome do bairro de Rua Amena para Rua dos Sorrisos. Para celebrar, decidiram pintar todas as portas e janelas da cor dos corações destas gentes.

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